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8.1.09
Experimento em Natal (RN) usou chocolate para estudar cooperação.Dificuldade de controlar muitos companheiros explica malandragem.

Pouco mais de 200 crianças de escolas públicas de Natal, no Rio Grande do Norte, ajudaram um grupo de pesquisadores a entender melhor uma questão que atormenta todas as sociedades humanas: quando e por que as pessoas decidem ser honestas ou trapacear. E, ao menos no experimento deles, o xis da questão parece ser o tamanho do grupo social envolvido. Quando há muita gente envolvida, as pessoas se sentiriam mais à vontade para passar a perna umas nas outras, porque seria mais difícil ser pego com a boca na botija, por assim dizer.

O trabalho, coordenado por Maria Emilia Yamamoto e Anuska Irene Alencar, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e publicado na revista científica "Evolution and Human Behaviour", segue uma tradição clássica nos estudos sobre o comportamento humano. A idéia básica é usar jogos como uma janela experimental para o funcionamento da nossa cabeça social. É comum que esses jogos dêem aos participantes a oportunidade de sacanear o próximo e obter lucro com isso, esperando para ver como a maioria das pessoas vai reagir.

No caso das crianças potiguares, os pesquisadores da UFRN trabalharam com um objeto de desejo bastante palpável: barras de chocolate. Os meninos e meninas, de cinco a 11 anos de idade, eram divididos em grupos formados por gente de sua própria sala de aula, um deles com até sete crianças e o outro com até 19 crianças (um grupo pequeno e outro grande, portanto). No passo seguinte, cada um recebia três chocolates e um envelope.
Tentação
É então que vinha a tentação. As crianças podiam "investir" quantas barras de chocolate quisessem num fundo comum. No fim da brincadeira, os pesquisadores dobrariam o "valor" de todas as barras "investidas" e dividiriam a quantidade multiplicada de forma igual para todas as crianças do grupo. A coisa "racional" a fazer, portanto, seria investir todos os chocolates de todo mundo, porque todos levariam para casa mais chocolates dessa maneira.

Ou não? "A coisa mais sensata a fazer é colaborar apenas se os outros também colaborarem", explicou Yamamoto ao G1. Em tese, se todo mundo colaborar, menos uma criança, ela vai ser a maior ganhadora, porque receberá os benefícios da cooperação sem sacrificar nenhum dos chocolates que ficaram na sua mão, diz a pesquisadora. É o comportamento conhecido nos estudos da área como o do free rider, ou seja, o sujeito que ganhou "viagem grátis" na malandragem.

"No fundo, as decisões que a gente toma nesse tipo de situação não são racionais, são emocionais", afirma Yamamoto -- e o medo de ser passado para trás tende a impedir a colaboração plena. A menos, claro, que haja algum mecanismo para botar um freio nos free riders. E é aí que entra o tamanho do grupo.

Em tese, as doações deveriam ser anônimas, mas as crianças tentaram ao máximo ficar de olho em quanto cada companheiro estava contribuindo para o fundo comum. No entanto, é muito mais fácil fazer isso em grupos pequenos do que em grupos grandes. Dessa forma, tanto a doação foi mais generosa em grupos pequenos quanto também decresceu menos ao longo das sessões (já que houve mais de uma rodada do jogo). Estatisticamente, o tamanho do grupo parece ser mesmo o fator-chave para o comportamento das crianças.
Pegadinha
"Nos dados qualitativos, nós observamos algumas coisas fantásticas. Uma menina, por exemplo, doutrinou as outras crianças dizendo 'olha, meu pai me explicou que a gente ganha mais se todo mundo doar todos os chocolates, então vamos todos fazer isso'. Só que aí todos contribuíam, menos ela, que não contribuía com nada. É uma política nata", brinca Yamamoto.

A pergunta que fica é inevitável: o que poderia ser feito para coibir ainda mais a trapaça? O controle social -- de preferência alguma forma de vigilância direta ou punição -- parece ser a resposta. "Se a doação fosse aberta, com certeza eles seriam muito mais generosos. Em experimentos em que os pesquisadores vêem quanto está sendo doado, é o que acontece", afirma ela.


fonte:G1
link do postPor anjoseguerreiros, às 19:17 

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