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5.7.09

O fato de falarmos a mesma língua, e sermos colonizados pelo mesmo país não nos dá qualquer indicador de sermos países irmãos
Nem sempre a relação entre canarinhos e palancas negras, mascotes das seleções brasileira e angolana, vive de convergências - desenho retirado do blog solangeemangola.blogspot.com
Pouco depois de ter chegado ao Brasil, o pessoal de Angola me fazia insistentemente às seguintes perguntas: E ai cara como é Brasil? Tem muitas semelhanças com Angola? (1) No meio disso, eu apenas dizia: É muito cedo para dar uma resposta clara sobre esses aspetos. Passado o tempo, acredito que agora já estou em condições de tecer algumas considerações a respeito disso.
Faz menos de quatro meses que me encontro na Republica Federativa do Brasil. Quatro meses, mais, o suficiente para viver e compreender por um lado a grande simpatia e hospitalidade deste povo maravilhoso e, por outro, a “ignorância” dos mesmos pelas questões ligadas aos países africanos da lusofonia e, ao mesmo tempo notar as grandes diferenças entre os angolanos e brasileiros nas questões de educação e produção cultural.
Quero deixar bem claro que quando falo da ignorância não é no sentido pejorativo, espero bem que entendam, quero apenas mostrar aqui que para muitos brasileiros, fora do Brasil o único país que fala a língua portuguesa é Portugal. Talvez seja por ser um pais da “Europa”, ou ainda, pelo fato de ser o “colonizador” será? Deixo isso para cada um tirar as suas conclusões. Por vezes eu tenho me perguntado: Será que na grade curricular do Brasil não há conteúdos que retratam sobre a lusofonia? Ou será mesmo uma simples ignorância das pessoas? Estas inquietações surgem como contra pergunta a respeitos de diversas interrogações a qual somos vitimas quase todos os dias que nos apresentamos como sendo angolanos: Puxa cara você fala bem o português. Angola? Fica aonde? Em Angola também se fala português? Enfim, muitas e outras que nem basta relatar aqui mais que me deixam muito indignado. Quero mais uma vez ressaltar que o uso do termo “ignorância”, se justifica porque a camada que me interpreta dessa forma constitui-se em indivíduos com certo nível de desenvolvimento e com um grau de escolaridade acima do nível médio. Boa parte destes são pessoas que estão na faculdade e muitos ate já terminaram a graduação. (estou a falar de indivíduos da grande metrópole do Estado de São Paulo e não do Brasil em geral).
Há muita crença de que não existem muitas diferenças entre o povo Brasileiro é o povo Angolano. Esta crença é muita das vezes sustentada pelo fato de falarmos a mesma língua, termos o mesmo colonizador e, principalmente na expectativa de que muitos angolanos transportados para America como escravos terem parado no território que hoje forma o Brasil. Na verdade em meu ver, ali é que esta o problema. É justamente ali onde reside a falsa crença: O fato de falarmos a mesma língua, e sermos colonizados pelo mesmo país não nos dá qualquer indicador de sermos países irmãos. Há uma total discrepância na significação e na produção cultural entre os dois povos. Há muitos valores, crenças e costumes que são totalmente diferentes. Passo a citar apenas alguns.
Tanto em Angola como no Brasil, existem variedades de hábitos, rituais e costumes culturais, oriundos de povos de várias etnias, desde as danças, musica, gastronomia, vestimentas etc. A diferença reside na maneira como os indivíduos e grupos expressam e atribuem significado à estas experiências, o que de uma maneira ou outra estão intrinsecamente relacionadas com o contexto social e cultural específico.
Enquanto que os valores do povo brasileiro se caracterizam por privilegiar uma abordagem individual, o que torna a pessoa presa a sua “toca”, ao ponto de não querer saber nem mesmo do vizinho, muito menos do outro, tornando se desse modo preso ao leito familiar ( mamãe e papai), os elementos culturais angolanos enfatizam o coletivo, o social, a comunidade. A filosofia de vida dos angolanos está intimamente aprofundada no princípio de valores tradicionais. Em quase todas as camadas ou extratos sociais em Angola, e comum fazer o recurso à tradição, principalmente em períodos de crise pessoal ou mesmo social. As rituais tradicionais é o meio pelo qual são celebradas ou governadas situações específicas.
Pode notar também que uma das grandes diferenças destes dois povos “irmãos” consiste no modelo de educação adotado no processo de transmissão dos valores culturais as novas gerações. Brasil usa um sistema liberal, onde quase tudo é permitido, dado e ensinado. Cabe a cada pessoa analisar e refletir por si mesmo se pode aderir ou não. Nota-se neste sistema a livre e espontânea vontade que as pessoas apresentam na expressão oral e em conseqüência disso, quase 90% dos jovens Brasileiros, dificilmente falam sem tirar “palavrão” ou mesmo usar a gíria na sua alocução.
Já Angola, usa um modelo semi Aberto, onde muita coisa é filtrada antes mesmo de chegar às pessoas de modo a evitar o choque com os modelos culturais e tradicionais. Em conseqüência disso, os angolanos são presos à cultura e os valores morais das suas regiões origens.
Estas em linhas gerais constituem em meu ver as principais diferenças entre o povo angolano e o brasileiro. Sem querer terminar, mas término por aqui, antes dizer: A cultura joga um papel crucial no bem-estar psico-social das populações uma vez que a maneira através da qual as pessoas gerem o seu sofrimento estão, pelo menos em parte, baseadas nas percepções culturais. “A diferença gera desenvolvimento”.
(1) Quando nos referimos a diferenças e semelhanças, estamos apenas a fazer referência sobre os aspectos de produção cultural entre os dois povos, ou seja, existem hábitos e costumes iguais? Em nenhum momento, me referi aos aspectos de desenvolvimento socioeconômicos que, a priori se diga, não tem nada de comparação com Angola, exceto as favelas (mas sem o tráfico).

Fonte: O Patifúndio.com
tags:
link do postPor anjoseguerreiros, às 14:19  comentar

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colaboradores: carmen e maria celia

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