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14.3.09
O menino de 8 anos foi transformado em troféu de guerra. Por que as famílias não pensam só nele?

A reportagem sobre a vida de Sean Bianchi Goldman, publicada em EPOCA, me revelou a que grau podem chegar a cegueira e a histeria de adultos insensíveis aos desejos de um menino de oito anos. Por mostrar que Sean é feliz no Rio de Janeiro, revelar a versão da família brasileira e testemunhar seu amor pelo padrasto – a quem chama de pai –, fui chamada por americanos de “fucking whore” e acusada de ter escolhido a profissão errada: “Você deveria estar limpando banheiros nos Estados Unidos”.
Está em jogo o destino de um menino de oito anos com dupla nacionalidade: americana e brasileira. Por que ele precisa escolher entre as duas famílias? Não é difícil imaginar o que Sean respondeu aos psicólogos. Deve ter dito que não quer mudar-se agora do Rio de Janeiro para Nova Jersey. Aqui, ele vive bem há quatro anos com os avós maternos e o padrasto. João Paulo Lins e Silva é reconhecido por vizinhos, por amigos e professores de Sean como seu pai. O menino perdeu a mãe, Bruna, em agosto, no parto de sua irmãzinha de seis meses, Chiara.
Mas o pai biológico tem casa em Nova Jersey, com rio, floresta e barcos, e manteve intacto o quarto do filho, que saiu em férias com a mãe em junho de 2004 e não voltou. O desfecho deveria ser simples: na falta da mãe, o filho deve morar com o pai biológico. Desde que o pai queira e não seja desequilibrado, desempregado ou alcoólatra.
Normalmente, seria assim, se Sean reconhecesse David como pai e se as duas famílias não tivessem se engalfinhado na Justiça e cultivado o ódio mútuo. Há ameaças na internet, lobbies no Congresso dos EUA e manifestações de rua. Sean foi transformado em um troféu de guerra. É uma criança inteligente, consciente e esperta. Quem pensa que pode tornar-se amigo dele chamando sua mãe de criminosa, seu padrasto de sequestrador, e sua avó materna de ridícula, quem pensa assim está louco. Se o pai biológico imagina que pode tirá-lo à força de onde vive, com mandado de “busca e apreensão”, a ajuda da Polícia Federal brasileira e o apoio de um deputado americano, é porque está fora de si.
David só será considerado “daddy” pelo filho se reconquistar esse papel legitimamente. Controlando a ansiedade, o desejo de vingança, e comportando-se como pai – o que não fez nos últimos quatro anos e meio. Ele poderia ter tentado ver o filho quando vinha ao Brasil, em vez de ir aos tribunais. Eis o grande nó desse drama familiar. Se Sean já morava no Brasil com a mãe, se a lei em todos os países costuma dar a guarda de filhos pequenos à mãe, se em 2007 Bruna foi inocentada pela Justiça brasileira da acusação de sequestro, por que David não retomou o vínculo com seu filho em vez de dar alguns telefonemas e enviar raros cartões dizendo “I love you”? Por que esperou Bruna morrer? Se o pai americano provasse que a família brasileira o impediu de ver Sean, eu consideraria um crime, uma crueldade sem limite. Nenhuma mãe, nenhum pai tem esse direito, a não ser que o outro represente perigo para a criança. Por enquanto, não parece ser o caso de Sean e David.
David não precisa obter “a guarda definitiva” de Sean com açodamento. Venha ao Brasil várias vezes agora, para visitar seu filho e levá-lo para passear, não para agir como estrela lacrimejante de televisão. Reconstrua aos poucos sua relação com ele, não incite o mundo a odiar os que cuidam de Sean desde 2004 com carinho. Quem sabe, daqui a um ou dois anos, Sean já o enxergue como um de seus dois pais, como aquele que o concebeu junto com a mãe. Sean pode querer estudar nos EUA – não num pais racista e xenófobo que abomina sua família brasileira e enxerga guerras em tudo. Mas num país tolerante e civilizado, que entenda as nuances dos conflitos humanos e busque a paz.

O menino de 8 anos foi transformado em troféu de guerra. Por que as famílias não pensam só nele?
Num mundo ideal, Bruna teria dito a David, ainda nos EUA, em 2000, que o casamento terminara, que ela gostaria de voltar ao Brasil e o casal precisava negociar um acordo para Sean não perder o convívio com o pai. Provavelmente, Bruna desconfiava que o marido não aceitaria isso – e ela se tornaria refém de David em Nova Jersey. Decidiu falar em divórcio quando já estivesse no Brasil. Foi um erro, não um crime. Ela não falsificou a assinatura do marido, ela não fugiu para lugar desconhecido.
David deve ter sentido uma dor aguda ao saber que Bruna e Sean não voltariam. Mas, será que hoje ele continua convicto de ter agido no melhor interesse do filho? Se Bruna não tivesse morrido no parto, David nunca mais visitaria seu filho, não o beijaria, não saberia como ele vive, não checaria se é bem tratado ou não? Só o veria em fotos?
O que li em epoca.com.br me estarreceu. As convicções destemperadas das duas torcidas me atemorizaram. Houve quem comparasse Bruna à sequestradora Vilma Martins, que levou Pedrinho de um hospital ainda bebê e fingiu ser sua mãe durante 16 anos. As bobagens se sucediam em comentários cheios de raiva. Quem mandou Bruna casar com um americano? Se casou, teria de ficar nos EUA para o resto da vida – não importa a que custo. David é um ex-modelo, sua renda não é regular. Isso o desqualifica como pai? Claro que não. Se for verdade que, numa briga conjugal, David teria dado socos num armário, isso o tornaria um pai violento? Não necessariamente.
A disputa por Sean traz à tona alguns mitos sobre a paternidade e a maternidade. O maior é que “pai é pai” e “mãe é mãe”. Quantos pais estupram as filhas, quantas mães abandonam seu bebê no lixo, quantos pais e mães espancam suas crianças, moram com elas mas não as escutam nem as educam? Quantos homens abandonam os lares, deixando os filhos para trás, para que as mulheres os criem sozinhas? Quantas mães solteiras não conseguem que os “pais biológicos” registrem os filhos? Quantas mulheres adorariam que seus ex-maridos comparecessem mais, com presença afetiva, e compartilhassem a tarefa de educar os filhos? Não há lei nacional ou internacional que obrigue alguém a assumir reais deveres de pai e mãe. Não há casamento civil ou religioso que garanta que os dois pombinhos de branco se tornem pais e mães de bem. Ser “sangue do meu sangue” não assegura nada. É o começo de uma história que pode ou não ter final feliz – vai depender da maturidade dos adultos.
Se um dia Sean foi feliz nos EUA, hoje ele é mais feliz no Rio. Daqui a alguns anos, poderá ser mais feliz na Europa ou na Ásia. Por que tanta obsessão com a “guarda definitiva”, se hoje os filhos decidem dar tchau para os pais, viajar e morar na África?
As famílias devem colocar de lado seus egos e mágoas passadas. E pensar só em Sean e seu bem-estar. Conversem. Protejam o menino. O melhor para ele é ganhar o convívio com as duas famílias, a americana e a brasileira. Por que não criam o site deixemseanempaz.org?


link do postPor anjoseguerreiros, às 09:48 

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