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24.5.09
A vila onde morava Osvaldo Pereira Aguiar, principal suspeito do assassinato da menina Maisla Mariano dos Santos, está deserta. As famílias que residiam no local se mudaram em menos de uma semana de apontado o suspeito, sem deixar pistas. Os moradores da casa onde quatro jovens foram executados na calçada em janeiro, no Vale Dourado, Nossa Senhora da Apresentação, também.
Por onde a violência urbana passa, as histórias se repetem. O medo leva familiares e vizinhos das vítimas para longe, em busca de paz. Mas a sensação de insegurança que se enraíza na sociedade até mesmo em quem mora longe dos locais dos crimes, e não ocorre por acaso.
Os casos de Maisla e Maria Luiza (estuprada e morta em São Gonçalo do Amarante) pelos componentes bárbaros e pela exposição na mídia, elevaram o sentimento de insegurança, segundo o coordenador de Direitos Humanos e minoria (Codem) da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Sejuc), Marcos Dionísio.
Ele explica que a violência produz uma migração constante na periferia da Grande Natal, sobretudo, na franja de violência nas Zonas Norte e Oeste de Natal, São Gonçalo, Parnamirim e Macaíba, seja porque os familiares querem afastar-se fisicamente do local onde ocorreram as perdas dos parentes ou mesmo por receio de que também sofram agressões.
“Esse sentimento pode crescer mesmo quando se reduz os níveis de violência - não é o caso da Grande Natal - e é fruto direto da insuficiência do funcionamento da nossa estrutura policial, judiciária e penitenciária”. Ainda segundo ele, a ausência do Estado, desde a falta de acessibilidade, iluminação e pavimentação adequadas nas ruas, até a falta de elucidação dos crimes, leva à constante sensação de insegurança.
A maioria dos crimes cometidos nas comunidades fica impune e os números mostram que a violência vem crescendo na Região Metropolitana, com destaque para os bairros da zona Norte. Em 2008 foram registrados 319 assassinatos em Natal, ao passo de que nos quatro primeiros meses deste ano já são 150, quase metade. “Se continuarmos assim, chegaremos a 500 até dezembro”, preocupa-se Dionísio.
Na vila onde Osvaldo vivia, o que restou das casas antes alugadas foram portas fechadas e uma placa de “Vende-se”. Comerciantes vizinhos à vila, que fica na movimentada avenida João Medeiros Filho, zona Norte, prestaram depoimentos à polícia esta semana, sobre o suspeito de matar Maisla. Os investigadores buscam, entre as declarações, encontrar a resposta para o crime.
“Jamais diria que ele poderia cometer um crime como esse, sempre me pareceu normal”, diz o protético Welldson Cavalcante. “Não tenho medo de continuar aqui, não tenho envolvimento com o assassinato”, diz tranquilo.
Os telefones de contato da placa de venda levam ao proprietário, que também era comerciante de uma sucata ao lado da vila.
Para Marcos Dionísio, o que houve com as duas jovens são um capítulo à parte. “Os fatos foram potencializados pela grande repercussão, os suspeitos estão presos, os crimes investigados. Mas, e quanto aos tantos outros que ficam sem solução?”, questiona. Ele diz que é fundamental que o estado efetive as políticas públicas de segurança para resgatar a cultura da paz, e que a Justiça, Polícias e Ministério Público atuem de maneira mais integrada, e priorizem o combate à impunidade.

Família deixa casa no Vale Dourado

A equipe de reportagem da TN encontrou o irmão de João Paulo Moreira da Silva, um dos jovens executados no Vale Dourado em janeiro, sentado no mesmo lugar que a mãe viu o filho pela última vez. “Ela saiu para comprar o pão de manhã cedo e ele ficou na calçada. Quando voltou, João Paulo tinha ido ver o filho, que tinha um mês de vida”, conta Roberson Moreira.
A casa de João Paulo também está à venda, mas, segundo o irmão, porque o pai pretende comprar outra de menor valor e, com o restante do dinheiro, pagar dívidas pendentes. “Júnior”, morador da casa onde os quatro amigos foram mortos, só sobreviveu porque havia entrado em casa para desligar o fogo de uma panela.
Mesmo assim, a mãe de Júnior perdeu o sono depois dos crimes, adoeceu e não suportou a dor de continuar vivendo com a lembrança dos jovens. “Ela tinha problemas de pressão alta e ficou com muito remorso, por isso pediu ao marido para se mudar, não dormia mais de noite”, declara a tia de Júnior, que mora na rua das execuções.
Quando solicitado o contato para conversar com os ex-moradores, ela disse não ter o número do telefone, nem saber onde moram hoje. “Eles mudam de telefone o tempo todo. Conseguiram alugar a casa por dois meses, depois foi desocupada. Quando sabem que houve mortes aqui, os interessados não querem morar”.
Aos 24 anos, João Paulo estava desempregado (ainda recebia o seguro desemprego) e acabara de ser pai pela terceira vez. “Ele conversava com os amigos quando quatro homens chegaram atirando, sendo dois em uma moto”, conta Roberson e garante que o irmão não era envolvido com drogas.
Os assassinos, segundo ele, buscavam, na verdade, dois homens que haviam roubado uma moto no dia anterior ao crime. “Como não acharam os ladrões, mataram eles para não perder a viagem”, lamenta.

Cultura consumista leva à crescente violência entre jovens

A cultura que incentiva o consumo ilimitado, iniciada com o governo neoliberal, é também um fator que coloca o jovem como principal vítima da violência urbana. A constatação de Marcos Dionísio, coordenador do Codem, tem relação natural com o comportamento.
“O jovem é estimulado a consumir e, quando se vê sem oportunidades para alcançar o que deseja, perde as esperanças mais facilmente”, explica. “Assim pela própria imaturidade e desejo de fazer muitas coisas em um curto espaço de tempo, cai mais facilmente no mundo das drogas e do crime, tanto como vítima quanto como infrator”, esclarece.
Além da imaturidade, o jovem gosta de sair, dançar, namorar e, nem sempre, tem clareza de que esse comportamento é facilitador para persuasão de pessoas mau intencionadas.
Mesmo com a constatação difusa de que a maioria dos crimes tem vinculação com o tráfico de drogas, ele diz que é preciso cuidado ao divulgar essa informação. “O dependente químico não é um criminoso e a generalização protege assassinos e agride as famílias e vítimas mais uma vez”.
Tão necessário quanto uma melhor presença da repressão qualificada nas periferias, para ele, é a disponibilização da estruturas da saúde e da educação para conter a explosão do uso do álcool e do crack pela juventude. “Temos que fazê-los redescobrir o encantamento da vida e abrir-lhes perspectivas de esperança em meio a frustração consumista que os torna presas fáceis do tráfico”.

Falta integração entre rede de segurança e a sociedade

Para relativizar a sensação de insegurança, segundo Marcos Dionísio, é preciso mais do que a presença mais ostensiva da Polícia Militar nos bairros, o que começará a ocorrer nos próximos dias com a aquisição de novas viaturas policiais. “Deve-se desenvolver o trabalho integrado entre o poder judiciário, polícias, ministério público e sociedade civil, que elejam a redução dos homicídios como prioridade”.
Isso só será possível, segundo ele, restaurando a confiança da população nas polícias, o que só ocorrerá se houver uma ampla e legal qualificação do efetivo e recuperação da autoestima e a confiança dos policiais. “Assim, é possível responder rapidamente à criminalidade, do ponto de vista da repressão e prevenção”.
A presença qualificada da Polícia Militar nos bairros, aliada ao trabalho investigativo da Polícia Civil e da agilização da atuação do Judiciário e do Ministério Público, otimização de recursos humanos e materiais que sejam qualificados para investigar, planejamento de ações e motivação do policial, são os fatores cruciais para impedir a retroalimentação da violência e impunidade.
Como exemplo da fragilidade da polícia natalense, ele cita a liberação do suspeito de matar Maisla após seu primeiro contato com a polícia. “A polícia nem sabia que ele tinha dois mandados de prisão e o liberou, quando poderia ter pesquisado o histórico dele com rápida busca na internet. Só depois foi expedida a prisão preventiva”.

Por: Ellen Rodrigues para o Tribuna do Norte
Foto:Elisa Elsie
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