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2.5.09
O Dia do Trabalho passou a ser data importante no calendário político brasileiro durante o Getulismo. Era no 1º de maio que oditador Vargas, seguindo as pegadas do fascista Mussolini, anunciava asmedidas benéficas aos trabalhadores que acabavam satelizando o sindicalismo ao governo e reduzindo a influência comunista nas fábricas: a instituição e o reajuste anual do salário-mínimo, a reduçãoda jornada de trabalho para oito horas, a promulgação das leis quegarantiram direito de férias e aposentadoria etc.
Um 1º de maio raivoso foi o de 1968, quando os opositores moderados da ditadura convenceram o governador paulista Abreu Sodré deque ele seria bem recebido na manifestação dos trabalhadores na Praçada Sé. Os sindicalistas do ABC e de Osasco não concordaram e, quandoSua Excelência começou a discursar, uma nuvem de pedras partiu em suadireção.
Com um filete de sangue escorrendo pela testa, Sodré escafedeu-se para a Catedral da Sé, sem o mínimo respeito pela dignidade do cargo (o presidente francês Charles De Gaulle, quando caçado pelos terríveis terroristas da OAS, mantinha-se imóvel e imperturbável enquanto os disparos zumbiam a seu lado, deixando atarefa de salvá-lo inteiramente a cargo dos seguranças).
Veio o AI-5 e o terrorismo de Estado inviabilizou asmanifestações de protesto de trabalhadores até 1978, quando mais de 3 mil metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) fizeram do 1º de maiouma comemoração do renascimento do movimento sindical independente.
Dois anos depois, já eram 100 mil os trabalhadores que sereuniam no estádio da Vila Euclides, para manifestar apoio aosdiretores do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo que haviam sidopresos por organizarem uma greve. Um deles se chamava Luiz Inácio daSilva.

É emblemática a diferença existente entre o aguerrido companheiro Lula de então, tão contundente e verdadeiro nas críticas ao FMI, e o flexível presidente que hoje considera uma glória o Brasil emprestar dinheiro ao Fundo.
Tanto quanto a própria perda de conteúdo e simbolismo do Dia do Trabalho, desde aquele longínquo 1º de maio de 1886, quando oito líderes trabalhistas de Chicago (EUA) organizaram manifestações de protesto contra os baixos salários e condições aviltantes, que incluíam jornadas de trabalho de até 17 horas diárias. Eles foram presos,submetidos a julgamento sumário e enforcados, o que gerou enorme indignação no mundo inteiro e acabou consagrando essa data como o diade luta dos trabalhadores.
O que mudou? Primeiramente, claro, as características doprocesso produtivo. As enormes fábricas em que trabalhavam milhares deoperários deixaram de existir, a mecanização atingiu um grau tal quemuitas máquinas são operadas por pouquíssimos homens, o desempregocrônico se tornou uma guilhotina suspensa sobre a cabeça de quem aindatem vaga (e, quiçá, carteira assinada), a terceirização se alastroucomo uma praga que dissolve direitos e mina a solidariedade entre osiguais que viram competidores, as categorias enfraqueceram-se, ossindicatos passaram a ser quase irrelevantes.
O 1º de Maio nasceu com o operariado industrial e esteve sempretão identificado com ele que o esvaziamento de ambos se deusimultaneamente. É lamentável, entretanto, que os dias de luto e deluta não tenham deixado de existir por terem se tornado desnecessários.
Pelo contrário, "nunca antes neste país" (como costuma dizer oLula) os trabalhadores viveram tão mal e com tanta insegurança. Adistância entre o lar respeitável e o colchão embaixo da ponte hoje émínima, tanto em tempos normais como quando as traquinagensestadunidenses colocam o mundo inteiro em recessão. Boa parte dasgarantias trabalhistas foi para o espaço e a grande maioria damão-de-obra está relegada à terceirização e à informalidade.
Quem quer manter-se à tona no abominável mundo novo é obrigadoa longas jornadas de trabalho (cujas horas extras, no caso de quemainda tem carteira assinada, dificilmente são pagas) e à reciclagemconstante, obsessiva. Acaba mais vivendo para trabalhar do quetrabalhando para viver.
O 1º de Maio institucionalizou-se e definhou. As centraissindicais só conseguem público para suas festas contratando artistas famosos e sorteando carros ou casas. Mas ainda há uma função a serpreenchida pelos dias de luto e de luta - na verdade, importantíssima.Há que resgatar este espírito combativo!
A História não terá fim enquanto o homem não levar a bom termo sua busca da felicidade. Então, para cada bandeira que tombar, outra deverá ser erguida. É um desafio colocado para todos nós, neste melancólico início do século 21.

Este artigo foi escrito por um leitor do Globo.


link do postPor anjoseguerreiros, às 08:35 

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