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4.5.09

Ao ver o primeiro corpo doado por vontade própria ao Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, em setembro do ano passado, a dentista Thelma Parada(foto),31, agiu com naturalidade.
Ainda que o cadáver fosse de sua avó paterna, Eunice, uma senhora de 85 anos que guardava desde 1978 a carta de consentimento de doação voluntária de seu corpo à ciência. "Fiquei orgulhosa de ser neta dessa pessoa, que pensava na ciência e no progresso da humanidade", diz.
Ela pediu autorização para dissecar o corpo da avó e foi responsável por fazer o primeiro corte no cadáver. Depois, o corpo ficou mergulhado em formol por alguns meses para ficar mais anatômico e, agora, é dissecado pelos alunos do departamento.
"Desde então, eu sou a única pessoa da família que vê a minha avó. Pelo menos uma vez por mês eu passo no laboratório para ver como andam as coisas. Consigo enxergar [o corpo] como um material muito rico, eu sofro muito mais ao ver um corpo ser enterrado", explica.
Thelma, que já fez sua carta de consentimento, defende a doação voluntária de corpos para melhorar os estudos de anatomia, disciplina que leciona na Unip. "As faculdades têm cada vez menos corpos, o processo é lento no caso de indigentes; as pessoas precisam se conscientizar sobre isso", alerta.
Sua avó sonhava em estudar medicina, mas foi proibida pelo pai e decidiu que "ajudaria a ciência pelo menos depois de morta".
Eunice solicitou aos familiares que não a velassem no dia de sua morte. Depois que morreu, seu corpo foi encaminhado diretamente para o Serviço de Verificação de Óbito de São Paulo e, de lá, para a USP. Os parentes se reuniram em casa.
"O fato de eu sempre ter lidado bem com a morte e ter gostado tanto de estudar anatomia deve ser influência da minha avó", diz Thelma.
JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo

"Doei meu corpo para o ensino da medicina", conta ex-taxista

O mineiro de Belo Horizonte José Maria da Silva, 71, foi caminhoneiro e se aposentou como taxista --profissão que exerceu durante 13 anos. Neste período, perdeu as contas do número de passageiros que transportou e da quantidade de histórias que ouviu.
Foi durante o transporte de um médico patologista, há cerca de 20 anos, que Silva tomou a decisão que ele considera a mais importante da sua vida: quando morrer, seu corpo será doado para a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde será usado como material de estudo nos cursos de medicina, fisioterapia e enfermagem.
Quando Silva morrer, não haverá enterro, apenas um velório simbólico para despedida dos familiares. Depois disso, o corpo será encaminhado para o laboratório de anatomia da Faculdade de Medicina, onde será preservado em formol diluído para depois ser estudado.
A inspiração para o gesto surgiu durante a conversa rápida que ele teve com o passageiro, médico da UFMG. "Lembro que ele usava um jaleco branco com as iniciais da universidade, mas não lembro o seu nome. Nunca mais o vi", afirma.
Silva conta que, durante o percurso, o médico fez um desabafo e comentou que as faculdades de medicina sofrem com a falta de cadáveres "frescos" (ainda não trabalhados por turmas anteriores) e que isso poderia prejudicar a formação dos alunos. "Taxista ouve muitas coisas e precisa saber filtrar o que ouve. Mas, nesse caso, a história despertou minha curiosidade e fui atrás para saber como doar o meu corpo", diz.
Depois de pensar sobre o assunto e seguro da sua decisão, Silva procurou a universidade para saber quais eram os procedimentos. Na primeira tentativa, na década de 80, passou por vários departamentos e não conseguiu efetivar sua vontade, pois ainda não havia legislação que regulamentasse a doação.
A lei que regula a doação é de 1992, mas só em 2000 Silva conseguiu se cadastrar oficialmente como doador, pois o serviço da UFMG foi inaugurado em 1999. Para isso, ele passou por uma rígida entrevista e assinou um termo que ficou registrado na faculdade. Em alguns casos, o documento é registrado em cartório, na presença de testemunhas.
Graças ao programa de doação, a universidade possui atualmente 296 doadores cadastrados e, destes, 30 já morreram e tiveram os corpos encaminhados para ensino.
Segundo o professor Geraldo Brasileiro Filho, ex-diretor da faculdade, a UFMG faz campanhas constantemente para incentivar a doação de corpos, pois a universidade praticamente não recebe cadáveres do IML (Instituto Médico Legal). "A nossa parceria com o IML existe desde 2004 e, desde então, só recebemos dez corpos. Por isso, fazemos um trabalho ativo para incentivar a doação."

Família precisa concordar

Vivendo em uma sociedade que incentiva a doação de órgãos com campanhas, mas que praticamente desconhece a doação de corpos, Silva dependerá do apoio da família para colocar em prática o desejo de doar seu corpo para estudos.
Isso porque, atualmente, quem decide se um órgão pode ou não ser doado é a família, independentemente da opção em vida do doador. A doação do corpo funciona da mesma maneira --embora a lei 8.501 de 1992 regulamente a doação de cadáver para ensino.
Apesar de ser doador declarado --com direito a carteirinha oficial e termo de doação--, Silva encontrou a primeira dificuldade dentro de casa, pois sua mulher ainda não entendeu os motivos de ele querer doar o corpo depois que morrer, por isso rejeita a ideia.
"Ele cismou com esse negócio de doar o corpo, mas ainda não consigo aceitar a decisão. Acho muito complicado, eu quero ser enterrada quando morrer. Pode ser que eu mude de ideia algum dia", diz Neuza Silva, mulher de Silva.
Sem o consenso familiar, no entanto, a vontade de Silva de doar o corpo perde o valor. "As minhas filhas são mais tranquilas com relação a isso e espero que minha mulher mude de ideia com o passar do tempo. A minha família toda sabe da minha posição a respeito do assunto. Espero que ninguém me decepcione", diz o ex-taxista.
O professor Brasileiro reforça que, apesar de existir um termo oficial de doação, a universidade nunca entrará em conflito com a família do doador, caso os familiares se recusem a cumprir o termo de doação.
"A morte é um momento particularmente doloroso e nosso objetivo não é criar confronto. A faculdade precisa de corpos, mas não a qualquer custo. Por isso, é muito importante orientarmos os familiares, pois, se não os tivermos como aliados nessa tarefa, provavelmente nem saberemos que a pessoa faleceu", explicou o professor.
Silva diz esperar que a família entenda e apoie sua decisão. "Decidi doar o meu corpo para cobrir uma lacuna que existe no ensino da medicina. Se eu souber que minha vontade não foi realizada, será uma grande frustração. O nosso corpo não tem dono e, se não tem dono, é da ciência", afirma.

FERNANDA BASSETTE
da Folha de S.Paulo

Conhecer "A doação de corpos em vida" é uma atitude humanitária e solidária, ajudará as Instituições de Ensino Superior formarem bons profissionais. As Faculdades de Medicina, tanto do Brasil como do exterior estão realmente precisando de corpos para estudo e atualmente fazem campanhas para doação. Antes de registrar sua vontade em cartório é prudente orientar sua família sobre esse desejo. Caso aja interesse em doar entre em contato com a Profª Drª Tania Regina Santos Soares da área de Anatomia humana do DCM/UEM (3261-4340). Além do doador e a representante da Instituição para qual se deseja fazer a doação, são necessárias duas testemunhas. Todos devem comparecer ao cartório, onde a vontade do doador será registrada, munidos dos seguintes documentos: RG, CPF, Certidão de Casamento, Comprovante de residência


A lei nº 8.501, de 1992, que regulamenta o uso de cadáveres para finalidades científicas, trata apenas do uso de corpos não reclamados (indigentes). A USP (Universidade de São Paulo) e a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), por exemplo, aceitam a doação. No caso da USP, é preciso ir até a Faculdade de Medicina com RG e CPF e preencher uma declaração, que deve ser assinada pelo próprio voluntário (com firma reconhecida) e por mais cinco pessoas (todas maiores de 18 anos). Recebe-se, então, um documento com os procedimentos que deverão ser adotados pelos familiares após a morte. O sistema da Unifesp é parecido, mas são necessárias apenas duas testemunhas. Já a Unesp (Universidade Estadual Paulista) não aceita as doações voluntárias. Informações: tel. 0/ xx/11/3066-7000 (USP) e tel. 0/xx/11/ 5576-4522 (Unifesp).
link do postPor anjoseguerreiros, às 12:56  comentar

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