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13.4.09
"Acho que tenho alguns aqui, peguei nessa parede da sala. Já volto", diz Tarciso da Rocha, 66, dentro de sua casa, num sítio simples na zona rural de Lassance. Em instantes, volta com a resposta em suas mãos: uma caixa de fósforos contendo cinco insetos mortos e dois vivos, recém capturados no galinheiro da casa. Eram espécimes do barbeiro, potencial vetor da doença de Chagas.
O relato do roceiro, dez dias atrás, poderia ser similar a outros obtidos em diversas outros lugares da América Latina, mas Lassance tem uma história especial. Foi lá que o médico Carlos Chagas (1879-1943) elucidou o mecanismo do mal que leva seu nome --ele concluiu o estudo em 14 de abril de 1909--, descoberta considerada a mais importante já feita por um cientista brasileiro. Aparentemente, porém, o cenário mudou pouco na cidade mineira.
Ao lado do marido, Inezina da Rocha, 59, exibia um sorriso fácil. Acolhendo a reportagem da Folha, há dez dias, não parecia estar abalada pelo convívio com a doença de Chagas, mal que provavelmente contraiu há tempos, "quando ainda morava em casa de barro".
Lalo de Almeida/Folha Imagem
Inezina da Rocha, paciente chagásica, se debruça na janela enquanto dedetizador Sílvio Santos borrifa inseticida em seu terreno
Hoje, a sede do sítio do casal, de onde não se sai sem tomar um café no copo, é de tijolo. Mas, a poucos metros, a velha casa de adobe ainda está de pé. "Criei toda a minha família lá. Hoje é um depósito", diz. Além da fadiga, dona Inezina toma remédio para controlar o baticum, palavra usada em Minas para arritmia cardíaca.
No dia seguinte, no centro de Lassance, a vigilância epidemiológica foi alertada pela reportagem da Folha e fez uma visita ao casal. Mais de vinte barbeiros foram capturados.
Silvio Santos, exterminador de barbeiros há 24 anos, é um dos responsáveis por borrifar o veneno nas casas de Lassance.
"A vantagem é que os produtos usados hoje não deixam cheiro", diz, sem mencionar que o veneno é considerado tóxico mesmo sendo inodoro.
Pau-a-pique
Casas de pau-a-pique, preferidas pelos barbeiros, são comuns na região, bem como a pobreza, que atinge 78% da população. O mal de Chagas, porém, é só um dos problemas de saúde numa população que já enfrenta males "modernos", como obesidade e diabetes.
Mas o contato com o inseto nem sempre transmite a doença.
Para tal é preciso que ele esteja transportando o Trypanosoma cruzi, protozoário que ao alojar-se no coração humano deflagra a moléstia. A variedade de barbeiro achada na casa de seu Tarciso, Triatoma sordida, menos mal, dificilmente aparece portando o patógeno.
Apesar de a transmissão pelo próprio inseto estar reduzida a quase zero no sertão mineiro, notificações novas de Chagas aparecem todos os anos por lá, diz o veterinário Adriano Sanguinetti, coordenador de epidemiologia de Lassance. Os casos são novos, diz, mas de infecção antiga. O contato com as fezes do barbeiro contaminado, provavelmente, ocorreu há décadas, porque a infeção pode seguir assintomática por anos.
Mas, mesmo com o ciclo da doença quase interrompido agora na região (muito por causa do desmatamento, que afasta insetos contaminados de áreas habitadas), a transmissão é possível. "Ela existe, a doença não está erradicada", afirma o médico João Carlos Dias, filho de Emanuel Dias, um dos discípulos de Carlos Chagas.
Ele é pesquisador atuante do Centro de Pesquisa René Rachou (Fiocruz). Aos 70 anos, é um dos maiores especialistas em epidemiologia de Chagas do Brasil. "O controle do barbeiro é fundamental. Hoje, ele existe inclusive em São Paulo. Não é possível deixar que o inseto invada as residências", diz.
Tercília da Silva, 76 anos, outra moradora da zona rural de Lassance, é vítima de como uma certa negligência com o mal de Chagas continua, após um século. Há menos de cinco anos, ela descobriu estar infectada e, agora, integra a estatística de prevalência da doença --provavelmente subestimada.
Subnotificação
Na América Latina, 13 milhões de pessoas estão infectadas sem saber, estima a ONG Médicos Sem Fronteiras. Outras 16 milhões estão nos registros. No Brasil, 292 casos novos de Chagas agudo por ano foram notificados de 2006 a 2008.
Segundo Dias, Carlos Chagas teria muito orgulho hoje "de ver como a ciência que ele inaugurou andou mais no Brasil que no resto do mundo." Mas de tratamento e diagnóstico, ainda precários, não se pode dizer o mesmo. "Ele iria ficar um pouco impaciente." Chagas sabia que ações políticas são sempre arrastadas, afirma Dias.
Fonte: Folha de São Paulo
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link do postPor anjoseguerreiros, às 15:01 

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