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1.4.09
O psiquiatra Flavio Gikovate analisa o que há de verdade nas brincadeiras sobre o 1º de Abril

Se a mentira fosse filha do diabo, como diz o ditado, não teria um dia só para ela no calendário – como acontece de novo hoje, 1º de abril. Ela também é filha, muitas vezes, da generosidade, da prudência. Mentir pode ser uma questão de polidez, diplomacia ou até sobrevivência. Se alguém discordar, que tente passar um um dia inteiro dedicado a dizer apenas verdades.

“As pessoas nem sempre gostam de ouvir a verdade”, avisa o psiquiatra Flávio Gikovate. Há um limite entre a mentira funcional e a outra, usada como autodefesa, em benefício próprio. Procurado pela coluna, para explicar quando ela vale ou não, Gikovate – que apresenta um polêmico programa em que dá consultas-relâmpago por telefone, na rádio CBN – lembrou que a sinceridade pode, às vezes, ser uma coisa maldosa, agressiva. Deve ser verdade. Ele garante que já atendeu “mais de 8.000 pessoas” em seu consultório.

O diabo é o pai da mentira? Não. A mentira é um instrumento da inteligência humana.

Em média, quantas vezes você mente por dia? Não vale mentir (risos)... Sou um mentiroso modesto. Na minha vida pessoal, não minto. E não minto nunca para meus pacientes. Sou adepto de uma posição nova da medicina, de se falar tudo. É claro que eu nunca diria a um burro que ele é burro. Mas, tampouco, diria que ele prima pela inteligência.

É possível ser 100% sincero? A sinceridade muitas vezes é agressiva. Quem diz que é sincero e fala tudo o que pensa acaba sendo maldoso, agressivo. Usa a honestidade com intuitos às vezes duvidosos. Socialmente, eu nunca vou revelar por que recuso determinados convites, por exemplo. Não é polido.

Quem mente não é necessariamente mau caráter? Mais ou menos. A mentira surge cedo na vida, um óbvio sinal de inteligência da criança. Lá pelos quatro anos, ela já mente para livrar-se de punição. Quando a criança começa a mentir, é sinal que a cabecinha está funcionando de um jeito interessante. Na vida adulta, boa parte das mentiras também tem a finalidade de livrar a pessoa da encrenca. Mas outras mentiras são contadas para levar vantagem. Aí é conto do vigário. Estas estão ligadas à deslealdade e a uma grande falta de caráter.

Quando a mentira faz bem? Quando é piedosa. Os médicos nem sempre contam para o doente terminal o real estágio da doença. Tampouco o presidente precisa dizer que uma crise é tão grave quanto realmente é. O Lula estava absolutamente certo quando falou que não pode dizer para um doente que ele entrou pelo cano. As pessoas não gostam de ouvir a verdade.

Então a pessoa que é totalmente sincera – se é que isso existe – acaba sendo grosseira... Ser muito sincero é algo rígido. Do ponto de vista moral, é preciso ter jogo de cintura. A falha de caráter não se mede pela mentira em si, mas pela intenção.

Dizem que a mentira se transforma em mitomania. O que é isso? A mitomania é a mania de mentir desnecessariamente. O mitômano costuma mentir por vaidade, para se engrandecer.

Mas a mitomania não é uma doença? Tenho 42 anos de profissão e atendi 8.000 pessoas. Até hoje nunca atendi a um mitômano. Tem que acabar com essa história de inconsciente. Isso foi uma das pragas que a psicanálise trouxe. Ao botar a culpa no inconsciente, o indivíduo está tentando se safar. Mitomania é autoafirmação.

Qual a melhor maneira de dizer uma verdade inconveniente? De um jeito fofinho, acolchoando a verdade com alguns elogios. Se a pessoa tem seis defeitos e uma qualidade, é melhor começar sempre pela qualidade. Faço isso em tempo integral.

Os pacientes mentem para você? Muito raramente. Mas tem também o inverso. Alguns pacientes eu perdi por que falaram muitas verdades na primeira consulta e depois não tiveram coragem de olhar na minha cara na semana seguinte. Nunca mais apareceram.

Como você sabe quando o paciente está mentindo? É impossível saber. Se a pessoa quiser me enganar, vai enganar.

Há quem critique o seu programa na rádio CBN, onde você “atende” a ouvintes ao vivo. A José Angelo Gaiarsa também fazia isso, mas na TV. Funciona? Se você aparece um pouco, sempre vai ter um monte de gente dando tiro. O rádio é o lugar certo para isso, não a TV. Programas como o meu existem no mundo inteiro. Na TV, ao vivo, a pessoa vai mentir. Nunca uma mulher falaria na TV sobre as fixações sexuais do marido, por exemplo.

Ser um psiquiatra muito conhecido não prejudica a relação com o paciente? Faço coisas púbicas desde 1977. Em 1976 já escrevia em jornal. Sempre achei que isso traz mais benefício que malefício. Meus clientes nunca reclamaram. Comecei a ir para a mídia quando já estava com consultório cheio. Foi uma forma de retribuição social.

E um pouco de vaidade, não? Claro. Se eu dissesse que não, seria mentiroso. Como não sou mentiroso (risos)... Na Bíblia está escrito: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade...”

PEDRO VENCESLAU



link do postPor anjoseguerreiros, às 16:22  comentar

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