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10.2.09
Não é que eu não goste de cachorros. Até gosto. Acho-os bonitinhos quando pequenos e simpáticos depois de grandes. Só não quero que eles babem na minha mão, estampem as digitais em meu peito ou resolvam, na flor da idade, aliviar suas urgências mais íntimas em minhas castas panturrilhas.
Se eu dissesse que não quero que um colega de trabalho lamba minha mão, enquanto digito, ou que o vizinho adolescente atraque-se à minha coxa, toda vez que tomo o elevador, seria acusado de misantropo? De inimigo da humanidade? Pois então, meus senhores, o que há de errado em esperar dos quadrúpedes – domesticados, de acordo com seus defensores – o mesmo respeito a certas regras mínimas de conduta e civilidade?
Acreditem, não é fácil, hoje em dia, ter qualquer reserva quanto aos cães. Nós, os que não ficamos contentes com o inesperado corpo-a-corpo com um animal desconhecido pelas esquinas da cidade, chegamos a ser até mal-vistos, socialmente. Crêem-nos seres desalmados, só por tentarmos nos desvencilhar do mamífero atracado a nossos sapatos, com discretos chacoalhões de perna, delicados safanões com o jornal. O tipo da pessoa que, se houver um crime no prédio, vai ser o primeiro suspeito. “Um cara estranho”, dirão.
Acho que cachorro, assim como sushi e religião, é um negócio com o qual a gente se acostuma desde pequeno, ou nunca mais. Lá em casa, íamos bastante à Liberdade, tínhamos uma vaga noção sobre Deus, mas nenhum relacionamento com bichos de estimação – peixes dourados e pintinhos, recebidos como brinde em feiras e festas infantis, não contam.
Consegui conviver razoavelmente bem com esse, digamos, desvio, até que fui conhecer minha sogra, semana passada. “Ela é muito tranqüila”, avisou-me minha namorada, querendo acalmar-me, a caminho do almoço. “Fica ali na Granja Viana, com seus 17 cachorros, sossegada. A única coisa que ela não tolera é gente que não curte bicho. Ela acha que não é bom caráter”. Fiquei petrificado: aquela gente era eu.
Esforcei-me, nas duas horas que duraram o almoço, para disfarçar minhas reservas. Cheguei a ficar com dois cachorros no colo, durante algum tempo – fazendo carinho - e fui até capaz de discorrer sobre as virtudes e vícios do governo Lula enquanto um deles envernizava meu cotovelo com várias demãos de saliva.
Estava já no carro, crente que havia vencido a barreira da caninofobia e conquistado minha simpática sogra, quando ela se apóia na janela e me diz, sem rodeios: “você não gosta de cachorro, né?”. Quis explicar-lhe minha teoria sobre a civilidade inter-espécies, pensei em exemplificá-la dizendo como seria estranho se eu lambesse seu cotovelo, mas achei melhor resignar-me num sincero “não muito”.
Despedimo-nos melancolicamente. No caminho de volta, minha namorada tentou me consolar, dizendo que não tinha problema. O pior que poderia acontecer era, na próxima visita, sairmos de lá com um filhotinho de Dog Alemão. Ela falava sério. Eu devia ter dito que era alérgico. Agora, só me resta comprar uma cumbuca e um ossinho e aguardar a chegada dessa peluda prova de amor.


link do postPor anjoseguerreiros, às 12:19 

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