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10.1.09
SÃO PAULO - Na última vez em que foi a um supermercado, Ana Cristina Pimentel insistiu que precisava comprar o achocolatado preferido da filha. Foi até a prateleira, pegou o pote e dirigiu-se ao caixa. Após um rápido silêncio, começou a chorar na frente da funcionária. Pediu desculpas, deixou o produto e, amparada por uma amiga, saiu dali aos prantos. Ela dizia não acreditar que a filha estava morta, e que por isso tinha de levar para casa "as coisinhas" que a filha mais gostava de comer.
A filha de Ana Cristina, Eloá, de 15 anos, foi morta com dois tiros, um deles na cabeça , disparados pelo ex-namorado Lindemberg Alves, 22. O crime ocorreu em outubro do ano passado, ao fim de um sequestro de cem horas em Santo André, no ABC paulista.
Desde então, Ana Cristina vive um martírio. Deixou o emprego de merendeira numa creche pública, passou a morar de favor na casa de uma "irmã" da igreja evangélica, emagreceu dez quilos, vive à base de remédio de tarja preta para controlar a ansiedade e o sono e nunca mais viu o marido. Everaldo Pimentel está foragido desde que foi reconhecido pela polícia de Alagoas, enquanto a filha estava no cativeiro, como um dos matadores de aluguel envolvidos na morte de Ricardo Lessa, irmão do ex-governador Ronaldo Lessa, no início dos anos 90.
- Já pensei até em morrer, mas os meus dois filhos me agarraram ao lado do caixão da Eloá e, por eles, tenho que encontrar força para continuar - disse ela ao GLOBO, no escritório de seu advogado, quinta-feira passada, poucas horas depois de ficar cara a cara com o assassino de sua filha durante audiência no Fórum de Santo André.
No meio da entrevista, Ana Cristina, de 42 anos, pediu um copo de água. Com as mãos trêmulas, tirou de uma caixa transparente comprimidos de um remédio que ela mesma diz deixá-la dopada.
- Só assim eu consigo falar da morte da minha filha - disse ela, que, por vezes, chegava a rir diante de um bem-humorado advogado que se ofereceu para trabalhar na causa. - Não vamos pagar nada para o advogado, ele disse que não ia nos cobrar, e nem teríamos dinheiro para isso - diz ela, que deixou de receber os R$ 600 por mês desde que pediu licença no trabalho de merendeira.
Assim como os outros dois filhos (de 14 e 21 anos), ela nunca mais voltou ao apartamento de dois quartos num condomínio popular da periferia de Santo André, onde a família vivia até a tragédia. Tem usado roupas doadas por amigos, vizinhos e familiares, inclusive o jogo de saia e blusa de seda e babados que vestia na última quinta-feira.
Recentemente, Ana pediu a uma amiga para retirar do apartamento apenas os pertences da filha, hoje amontoados num armário na casa de dona Miriam Marques, a "irmã" da igreja que deu abrigo a ela e aos dois filhos até a última segunda-feira, quando a família foi para um apartamento cedido pelo governo do estado, naquele mesmo condomínio. Na invasão da polícia, os tiros disparados furaram paredes e móveis, inclusive o sofá recém-comprado pela família, que não tem mais as prestações pagas por Ana Cristina.
É na casa da amiga que está a agenda de Eloá, com uma página dedicada a uma carta escrita por Lindemberg.
- São palavras lindas, não entendo como ele conseguiu fazer aquela monstruosidade - diz dona Miriam, enquanto acaricia a mão de Ana Cristina, aparentemente sonolenta.
'Parece que o mundo está contra mim'
Alvo de olhares curiosos nas ruas, Ana Cristina deixou de usar os longos cabelos presos, como sempre fez em respeito à igreja que frequenta. Com o coquetel de remédios, parece viver em dois mundos. Assim como aconteceu no supermercado, volta e meia ela acredita cegamente que a filha está viva. Certo dia, mexendo na caixinha de manicure de Eloá, disse para a amiga:
- Vou esconder isso aqui porque se não o D. (filho mais novo) vai mexer em tudo, e a Eloá vai ficar brava... - Depois ficou em silêncio e seguiu para o banho.
O drama da mãe de Eloá ganha mais peso por causa das denúncias contra o marido. Nos últimos meses, no entanto, tem feito questão de declarar publicamente seu amor por ele, a quem chama de "um homem trabalhador, honesto e excelente pai". E chora quando se lembra da perseguição que diz estar sofrendo da polícia, que invadiu a casa da amiga onde estava morando sob a alegação de que havia denúncia de que o marido estava escondido lá.
Com o sequestro da filha, veio à tona outra parte da vida de Ana Cristina, até então velada. O Ministério Público de Alagoas quer saber se ela teve participação na morte da primeira mulher de Everaldo, assassinada em Maceió. O seu ex-marido, um comerciante que ainda vive naquele estado, acusou Everaldo de ter sequestrado o filho que teve com Ana Cristina, quando ela fugiu de Alagoas.
- Parece que o mundo está contra mim - diz, sob o olhar atento do filho mais velho.
Ao se despedir, ela se lembra da última conversa que teve com a filha.
- Pouco antes de o Lindemberg invadir a casa, pedi à Eloá que não abrisse a porta para ninguém. Estava com mau pressentimento. Dei um beijo na minha filha e fui trabalhar. Se soubesse que nunca mais ia vê-la, teria ficado ali, agarradinha a ela.

DOR ETERNA!!!


link do postPor anjoseguerreiros, às 21:15 

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