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17.4.09
Em busca de dinheiro fácil, mulheres saem do País, são escravizadas no Suriname e acabam vendidas para a Holanda por US$ 1 mil


Arua Hj. De Vries, no bairro de Rainville, em Paramaribo, capital do Suriname, é conhecida como avenida Brasil. Ali, o que mais se ouve é o idioma português, apesar de as línguas usuais do país serem o holandês e o inglês. Garotas brasileiras com vestidos decotados ou shorts curtíssimos se aglomeram em frente ao prédio que abriga uma das boates mais concorridas da cidade, a Diamond Night Club, frequentada por descendentes de africanos, indianos, coreanos e chineses - a mescla de nacionalidades que forma o país.
Ex-colônia holandesa e uma das repúblicas mais pobres da América Latina, o Suriname é a primeira parada de uma movimentada rota de tráfico de mulheres brasileiras para a Europa. Nos últimos três anos, Paramaribo se consolidou como um entreposto de prostitutas. No momento, cerca de 500 brasileiras integram o mercado do sexo no Suriname.
À noite, ao som de música baiana ou de grupos como Skank e Paralamas do Sucesso, elas animam as noitadas surinamesas. O destino de todas é a Holanda, depois a Espanha e a Alemanha. Elas são garotas da periferia, e também de classe média, de capitais como Belém, Manaus e São Luís em busca de dinheiro fácil. Em geral, não contam para a família o que fazem no Suriname. Por isso, a maioria se recusa a ser fotografada. Algumas delas são analfabetas, mas boa parte tem até o segundo grau completo.
"Todas ficam fascinadas com a idéia de ganhar dinheiro na Europa", testemunha Rosangela Medeiros, 23 anos, que, em junho de 1994, trocou o emprego de escriturária em Belém pelo de prostituta no Suriname. Após um ano, ela conseguiu fugir de avião para Caiena, na Guiana Francesa, graças à ajuda de garimpeiros brasileiros.
A primeira parada da rota do tráfico está a apenas duas horas e meia de vôo de Belém e não exige visto de entrada aos brasileiros. As garotas levadas ao Suriname fazem primeiro um "estágio" de três meses no país e, depois, passam um período similar na Holanda. Vendidas a donos de boates e casas de prostituição holandesas por US$ 1 mil, elas são posteriormente objeto da mesma transação na Espanha e na Alemanha.
A parada no Suriname é estratégica. Ali, as mulheres mantêm os primeiros contatos com os idiomas holandês e inglês, além de se acostumarem com a vida no Exterior. Duas garotas são enviadas semanalmente de Paramaribo para a Europa enquanto, no mesmo período, chegam grupos de cinco, dez e até 20 do Brasil. A maioria tem entre 18 e 26 anos, mas menores de idade chegam com passaportes falsificados.
No ano passado, a Polícia Federal em Belém abriu inquérito para apurar o tráfico e já indiciou três agenciadores, que recebem US$ 100 por garota contratada. "Não temos mecanismos legais para impedir a saída das moças", observa o delegado José Ferreira Sales.
O próximo da lista de indiciados será o surinamês Henk Kunath, dono da boate Diamond e de duas casas de prostituição na Holanda, apontado pela polícia como um dos principais mentores do tráfico de mulheres para a Europa, via Paramaribo. Atualmente, sua boate mantém 84 brasileiras, enquanto as concorrentes mais próximas, a Condor e a Manila, têm 30 e dez, respectivamente.
No total, o esquema movimenta US$ 15 milhões por ano, segundo cálculos do Comitê Brasil 94, uma ONG sediada em Paramaribo, que ajuda brasileiros em dificuldades. Os programas custam em média US$ 50.
Quem menos usufrui desse dinheiro, porém, são as mulheres. Nas boates e clubes surinameses, as brasileiras se tornam escravas do trabalho. Têm o passaporte retido e ficam impedidas de sair do país até saldarem seus gastos com passagens aéreas, passaporte, alimentação e moradia. O preço normal de uma viagem de ida e volta Belém-Paramaribo é US$ 350 mas os donos das boates cobram das garotas valores que variam de US$ 750 a US$ 1,1 mil. "É um inferno. Muitas vão acumulando dívidas e não conseguem mais pagar", denuncia a escriturária Rosangela. "Fui para a Guiana ilegalmente, porque meu passaporte ficou preso na embaixada."
A escravidão se repete na Europa. Na Holanda, segundo ponto da rota, as mulheres trabalham de graça até arrecadar US$ 2,5 mil para reembolsar a passagem aérea e a comissão dos donos de boates surinamesas. "É aí, na verdade, que eles ganham dinheiro", diz um funcionário de uma das casas noturnas.
O tráfico de mulheres é visto com naturalidade no Suriname, onde as garotas brasileiras têm sua atividade regulamentada. Para elas, a Polícia Militar local emite uma carteira de identidade específica, na qual são taxadas de animée meisjes - meninas de programa, em holandês.
O maior agenciador de brasileiras, Henk Kunath, 54 anos, circula numa Toyota Cruiser avaliada em US$ 50 mil, usa Rolex de ouro e é dono de propriedades no Suriname e de um supermercado em Belém. Casado com uma brasileira, que trabalhou em sua boate, ele passou 90 dias numa cadeia de Paramaribo por causa de denúncias de abusos feitas pelas prostitutas. Foi solto há um mês. "Não provaram nada contra mim", garantiu o empresário do sexo ao atender ISTOÉ em seu escritório, a poucos metros do bar privê da boate, onde garotas brasileiras descansavam em surrados sofás.
Kunath fez questão de indicar dez garotas para entrevistas. Todas relataram histórias de sucesso financeiro, tanto no Suriname quanto na Holanda. Esbanjando celulite, a morena Luana Soares, 28 anos, de Manaus, contava vantagem. "Mesmo gorda, ganhei US$ 14 mil em três meses na Holanda. Estou aqui pela segunda vez e vou voltar de novo." Jaqueline Machado, 22 anos, de Belém, se vangloriava de ter comprado uma casa. "Eu nunca arrumaria US$ 25 mil no Brasil como acabei conseguindo na Holanda, Espanha e Alemanha".
Depois, fora do controle de Kunath, ao entrevistar outras garotas - inclusive da Diamond -, ISTOÉ ouviu histórias diferentes, que incluíram fugas para áreas de garimpo e mortes provocadas pela malária. Segundo a assistente social Dinalva Souza, presidente da ONG Comitê Brasil 94, pelo menos quatro mortes de garotas brasileiras foram registradas nos últimos dois anos.

Denúncias como essa não abalam Kunath. Para o dono da boate, não há nada de ilegal na contratação das garotas, já que elas assinam um documento concordando com seus métodos de trabalho. Assinam, realmente, mas muitas vezes sob coação, cercadas de seguranças truculentos. E o contrato de quatro páginas oferecido por Kunath - cheio de erros grosseiros de português - é um atentado aos mais elementares princípios dos direitos humanos. As mulheres são proibidas de tudo e ele passa a controlar suas vidas.

Passam a pagar à boate a alimentação (US$ 20 ao dia) e a moradia (US$ 13 por semana). Cumprem exigências absurdas, como não frequentar lugares onde existam brasileiros, sob pena de multa. Se ficarem grávidas ou adquirirem alguma doença venérea, Kunath aplica mais multas, com valores definidos a seu critério. Até por ficarem menstruadas, as mulheres podem ser penalizadas. "A gente tem que descer e atender os clientes, além de pagar as diárias", relata Marina, 28 anos. Por isso, a maioria esconde a menstruação com a ajuda de absorventes internos.

Com tantas imposições, quem cometer muitas transgressões dificilmente se libertará das boates surinamesas, tal o acúmulo de dívidas. "Kunath estava exigindo US$ 1,5 mil para me liberar", relata a ex-professora Regina Alves, 26 anos, de Icoaraci (PA), fugitiva da boa-te há 15 dias. "Eu não paguei e agora tento voltar para o Brasil."

Para realizar algumas entrevistas, ISTOÉ chegou a reembolsar o valor de multas que as garotas precisavam honrar por se ausentarem momentaneamente do trabalho: US$ 35, na boate Manila, e US$ 47 na Diamond.

O regime de escravidão parece não assustar quem está de fora. Quatro vezes por semana, quando saem os vôos de Belém a Paramaribo, a movimentação pelo saguão do aeroporto Val de Cans chama a atenção. Dezenas de garotas se aglomeram em frente ao balcão da Surinan Airways, enquanto seus agenciadores apresentam os passaportes para o check-in. Dali em diante, elas só vêem o documento de novo quando quitam as despesas da viagem.

Algumas embarcam acreditando em falsas promessas de trabalho. Uma delas, a enfermeira Sônia, 30 anos, chegou a Paramaribo certa de que trabalharia em um hospital, com salário de US$ 5 mil ao mês. Quando percebeu o que se passava, pediu à família no Brasil dinheiro para pagar sua liberdade.

Iludidas, duas modelos de Goiânia viajaram imaginando que fariam desfiles de moda. Foram salvas por um pastor brasileiro da igreja pentecostal Deus É Amor, que ofertou o dinheiro para pagar o que deviam. "Eu pensei que iria trabalhar numa lanchonete na Holanda. Quando cheguei e vi as luzes da boate fiquei apavorada", relata Valéria Guerra, 26 anos, de Belém, que fala inglês e preparava-se para prestar vestibular para jornalismo na Universidade Federal do Pará, em 1993, quando viajou ao Suriname. "Fui enganada. Quem me levou foi uma japonesa de Belém, chamada Solange." Valéria, no entanto, acabou se prostituindo. Primeiro no Suriname, depois na Holanda.

Ao voltar para Paramaribo, foi colocada na rua só com a roupa do corpo depois de brigar com Kunath. Passou a cozinhar para brasileiros no garimpo de La Pabiqi, a uma hora de vôo de Paramaribo. Agora, casada, trabalha com vendas. "Paguei US$ 800 para ter meu passaporte de volta", relata.

As brasileiras em Paramaribo têm perfis distintos. Algumas são sonhadoras e foram ludibriadas. Outras não mediram as consequências da aventura e depois se arrependeram. Há também aquelas que sabiam o tipo de vida que levariam, mas pensavam apenas na recompensa financeira. "Não vim por necessidade. Sabia que rolariam programas, mas queria viajar e achei que valeria a pena", diz, cabisbaixa, a ex-professora Regina.

Drogas e agressões são comuns entre as garotas. Na porta da Diamond, que tem 50 quartos nos fundos, traficantes vendem abertamente papelotes de crack a US$ 12. Há dois meses, Regiane Rodrigues, 20 anos, conhecida como "Madonna", acabou expulsa da Diamond às 4h da manhã, só de calcinha. Estava drogada. Depois de vagar durante dias por garimpos surinameses, ela foi socorrida pela mãe, que saiu do Pará para buscá-la. Dois anos antes, Regiane havia feito sucesso em viagem para Holanda e Alemanha. Sua família guarda, com orgulho, um álbum de fotografias feitas na Europa. "Ela ainda vai ser modelo", sonha, na periferia de Belém, a mãe de Regiane, Marina.

As maiores queixas de maus-tratos em boates ocorrem na Manila. O dono da casa, um filipino chamado Ricky, é acusado de espancar brasileiras. É a casa noturna em pior estado de conservação. Os quartos onde as garotas moram e fazem os programas são imundos. As mulheres do Suriname também costumam ser usadas para transportar drogas para a Europa. Beatriz, 28 anos, que viajou para a Holanda no ano passado, conta que, ao chegar a Amsterdã, estranhou o peso de sua mala. "Estava lotada de cocaína. Deixei a mala na esteira do aeroporto e nunca soube quem foi o responsável por aquilo."

Também na Holanda, há três anos, a ex-estudante Valéria Guerra viu uma colega ser detida. "Meninas usadas pelos traficantes estão presas lá." Quando os chefões do tráfico de mulheres na Europa vêm ao Suriname, festinhas de embalo são promovidas em quartos de hotéis de luxo em Paramaribo. Nessas festas, a cocaína é servida em bandejas.

Antes de terminar a etapa do Suriname, as garotas são avaliadas para prosseguir carreira na Europa. Representantes de casas de prostituição na Holanda - duas delas conhecidas como Mammy Claudete e Mammy Lilian - viajam a Paramaribo para conferir as qualidades de suas contratadas. A primeira orientação dada às garotas é tirar a roupa. Depois, com ajuda de um boneco inflável, elas aprendem técnicas de massagem erótica. Recebem ainda aulas sobre o manuseio de chicotes, algemas e outros apetrechos sadomasoquistas. Só as bem-sucedidas nos testes vão para os clubes holandeses. As restantes ficam em casas fechadas.

Todas ganham no corpo um número tatuado, para facilitar a identificação. Na Diamond, antes de partir para a Europa, as brasileiras são homenageadas pelas colegas. Elas dançam, tomam banho de champanhe e tiram fotografias. Quando chegam à Holanda, trabalham em casas como a House Cherida, que tem sedes nas cidades de Haia e Eindhover. Lá, cada programa de uma hora custa US$ 125.

Dinheiro, é fato, muitas conseguem. Isso tem feito aumentar cada vez mais o tráfico de mulheres. Sem amparo, essas garotas ficam à mercê da própria sorte. "No Suriname, elas vivem num regime de escravidão. Mas não dá para oferecer passagens de volta para todas", argumenta o embaixador do Brasil no país, Roberto de Abreu Cruz. "Procuramos resolver os casos que chegam. Mas chegam poucos." As garotas brasileiras, em contrapartida, criticam a omissão da embaixada. Para a Polícia Federal, o tráfico de mulheres dificilmente será evitado se não houver controle da entrada e saída de brasileiros para o Exterior. "Isso existia até o governo Collor, mas terminou por algum motivo estranho", reclama o delegado José Sales.

Em Belém, ISTOÉ procurou algumas das acusadas de envolvimento no tráfico de mulheres. Maria Alves de Oliveira, 58 anos, a "Maria Batalhão", dona do bar Lírio de Maio, no bairro do Condor - uma das áreas mais miseráveis de Belém -, é acusada de aliciar garotas em boates. Ela negou. "Se eu ganhasse dinheiro com isso, não moraria nesse lugar." Outra, Genésia Rodrigues, foi procurada em casa, em Nova Marambaia, periferia de Belém, mas, coincidentemente, havia viajado para o Suriname. "Para vender roupas", apressou-se em justificar seu marido, José Rangel.

GILBERTO NASCIMENTO E ALAN RODRIGUES (FOTOS), DE PARAMARIBO

Via Goiânia

A mais nova rota de tráfico de mulheres brasileiras para o Exterior interliga Goiânia a Tel Aviv, em Israel. Na quinta-feira 30, a Polícia Federal impediu o embarque de oito prostitutas ao prender três agenciadoras. As 11 mulheres foram presas em flagrante num hotel no centro da capital goiana, momentos antes de seguirem para o aeroporto. Com promessa de receber R$ 250 por programa, as mulheres iriam deixar o País como turistas. A falsa excursão teria escalas em Roma e no Egito.

"Elas nos disseram que não tinham nada a ver com tráfico e nos prometeram muito dinheiro", afirma Márcia Mendes, 25 anos, que esperava faturar R$ 23 mil em oito meses. "Todas nós sabíamos que o trabalho era prostituição, ninguém foi enganada", completa. As agenciadoras financiaram todas as despesas do grupo. Antes de descobrir o novo destino, a polícia já tinha conhecimento das rotas de tráfico de mulheres de Goiás para a Espanha, do Pará para o Suriname e do Rio de Janeiro e São Paulo para vários países da Europa.

Mino Pedrosa


fonte:http://www.terra.com.br/istoe/capa/139219.htm

link do postPor anjoseguerreiros, às 08:46  comentar

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