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20.6.09
Neste link apresenta-se um resumo de um estudo realizado pela autora sobre auto-imagem de adolescentes grávidas, com utilização de uso projetivo de desenhos. Esse estudo compôs parte de sua tese de doutorado (Oliveira, 1999).

Na pesquisa, foi criada e aplicada uma técnica denominada Três desenhos de auto-retrato , que teve inspiração no clássico teste DAP (" Draw a Person "), o Desenho da Figura Humana (DFH) de Machover.

A prova aplicada: Três desenhos de auto-retrato
Para levantar características da auto-imagem de adolescentes grávidas, verificando a freqüência dos traços comuns ou raros nos seus desenhos de auto-retrato, foi confeccionada uma prova projetiva - Três desenhos de auto-retrato, e realizada sua aplicação em 50 adolescentes grávidas, inscritas no pré-natal do PAIAG – Programa de Atenção Integral à Adolescente Gestante

A proposta do instrumento foi inspirada na técnica do DFH de Machover (1949) e na técnica do ICG de Savastano (1981). Denominado Três desenhos de auto-retrato, o teste propôs às adolescentes a realização de três desenhos de si mesmas, estando grávidas ou não, num tempo anterior ou posterior ao parto, de acordo com as características do desenho inicial que elas tivessem realizado (incluindo o marco da gravidez como referência dos desenhos imaginados no passado, no presente e no futuro). A criação de um novo instrumental (ao invés da utilização do clássico DFH) deveu-se ao propósito de trabalhar com o "imaginário" da auto imagem em transformação pelas mudanças trazidas pela gravidez e pela adolescência. O objetivo do recurso dos Três desenhos de auto-retrato foi verificar como as adolescentes gestantes expressavam (projetavam) uma auto-imagem "atualizada" (estando grávidas), uma "anterior", e uma imaginada numa possibilidade "futura".
A instrução para o primeiro desenho era: "desenhe um retrato de você, de corpo inteiro, com qualquer idade". Se a jovem perguntasse se o desenho era dela grávida ou não, era-lhe respondido que ela escolhesse como quisesse. Para o segundo desenho, a instrução era praticamente a mesma (um retrato seu, de corpo inteiro, com qualquer idade ), com a diferença de que lhe era solicitado um desenho de um retrato dela não grávida , caso tivesse feito o primeiro desenho como grávida. E ao contrário, lhe era pedido um desenho dela grávida , caso sua primeira produção tivesse sido não grávida. Para o terceiro desenho, era solicitado um retrato de corpo inteiro depois dela ter tido bebê, com quanto tempo depois quisesse escolher, caso o desenho anterior não grávida fosse de um tempo anterior à gravidez. No caso do desenho anterior não grávida ter sido referido como de uma época posterior ao parto, solicitava-se no terceiro desenho um retrato de corpo inteiro, num tempo anterior à gravidez. Após a realização de cada desenho perguntava-se à adolescente sobre a idade que possuía naquele retrato, e a idade gestacional do desenho dela grávida. Às perguntas que a adolescente porventura fizesse sobre a execução do desenho, era-lhe respondido "como quiser".

Características do grupo investigado
O grupo foi composto de 50 adolescentes grávidas, atendidas no PAIAG, com idades entre 13 a 16 anos, de forma assim distribuída:

13 anos – 03 adolescentes
14 anos – 10 adolescentes
15 anos – 20 adolescentes
16 anos – 17 adolescentes

Resultados: discussão e análise
Os 150 desenhos foram inicialmente avaliados através de categorias de análise relativas a aspectos próprios da prova dos Três desenhos de auto-retrato, como: a primeira opção de retrato como grávida ou não grávida , as idades escolhidas para retratar-se, a idade gestacional escolhida para o retrato estando grávida , a presença do bebê no retrato posterior ao parto. Em seguida, procedeu-se uma avaliação dos auto-retratos enquanto desenhos de figuras humanas.

A aceitação da tarefa
Embora a hipótese de que a tarefa de "retratar-se num desenho" pudesse envolver maior ansiedade do que "realizar um desenho de figura humana qualquer", todas as adolescentes pesquisadas aceitaram a solicitação proposta na prova. A maioria delas manifestou no entanto alguma resistência inicial, mostrando-se a princípio inquietas, ou sorrindo desconcertadas, ou ainda fazendo comentários como: "é difícil", "não sei desenhar", ou "ai, meu Deus". A explicação atenciosa de que não se tratava de uma proposta para verificar como elas sabiam desenhar e sim de conhecê-las melhor, pareceu suficiente para que todas desenhassem os três auto-retratos. Também essa aceitação do total das jovens em realizar os desenhos (não recusa em nenhum dos 50 casos pesquisados) deve levar em conta uma provável submissão, visto a situação de aplicação da prova no ingresso ao programa de pré-natal (como em Menezes, 1993).

A ordem dos desenhos
A prova constou de três desenhos de auto-retrato, que por condição das instruções seriam: dois desenhos de auto-retrato não grávida e um desenho de auto-retrato grávida. A primeira opção de desenho poderia ser grávida ou não grávida, porém o terceiro desenho seria, também por força das instruções, necessariamente o de não grávida. Assim, à primeira escolha cabe analisar a opção (ou "tema"), mas não houve opção quanto ao retratar-se grávida ou não, nos segundo e terceiro desenhos. Quanto a esses, cabe análise de que idade se retratou – o tempo escolhido num passado, presente (principalmente quanto à idade gestacional, no desenho grávida) ou futuro.

Para facilitar o registro dos resultados foram usadas as convenções:
G - para o desenho de auto retrato grávida; AG - para o desenho de auto retrato não grávida , referido num tempo anterior a ter ficado grávida; PG - para o desenho de auto-retrato não grávida, referido num tempo posterior ao parto; NG - para os desenhos AG + PG.

Algumas conclusões
A partir da análise dos resultados da prova dos Três desenhos de auto-retrato, pode-se chegar a algumas conclusões de como um grupo de adolescentes grávidas expressavam graficamente o se perceberem.
Apesar da ocorrência de diversos sinais conflitivos e de muitas ambivalências, expressões próprias dos desenhos de adolescentes (Hammer, 1981, p.188), de forma geral os auto-retratos não indicaram projeções de imagens corporais prejudicadas. Não se evidenciam assim, auto-conceitos e auto-imagens com muitas características negativas, nas adolescentes grávidas pesquisadas.
As adolescentes grávidas apresentaram maior facilidade em se desenhar no período anterior à gravidez. Os desenhos de auto-retrato AG (antes de engravidar) foram os mais preferidos como primeira opção espontânea da projeção de auto-retrato e apareceram, em geral, com menos sinais gráficos indicadores de conflito. Foram esses desenhos AG os de aparência mais harmoniosa e com menor uso de sombreamento.

Os auto-retratos G, expressão de uma auto-imagem como grávida, aparecem mais problematizados (mais sombreados, mais corrigidos, menos proporcionais). Eles foram também menos escolhidos como primeira opção para um auto-retrato, independente da idade gestacional da adolescente. Os sinais de conflitos nos auto-retratos G podem ter ocorrido a partir de uma condição das adolescentes não saberem bem se desenhar como grávidas, expondo-se de uma forma nova e mais carregada de ansiedade. As percepções diretamente relacionadas às mudanças corporais (transformação muito dinâmica) e aos estímulos internos novos (a percepção do bebê que se mexe dentro do ventre, própria do tempo de gestação da maioria do grupo), além das fantasias acerca da exposição social do corpo grávido (com o ápice da exposição nos exames ginecológicos e nas fantasias do futuro parto) - tudo isso pode levar às expressões mais conflitivas do desenho estando grávida. Mas, mesmo com expressão maior de problemas, os auto-retratos G (como grávidas) não apresentaram indícios que possam ser considerados patológicos, no universo das adolescentes pesquisadas.
A tendência geral de se retratar num momento mais próximo ao presente, foi uma constante na prova, com um espaço temporal pouco distendido para o passado ou para o futuro. As adolescentes examinadas mostraram certa dificuldade de se imaginar num tempo diferente do agora . O imaginar-se no passado ocorreu dentro de um espaço temporal não muito distante do momento presente. A infância já parecia distante e foi escolhida para o tempo de retratar-se (ou identificar-se).
As maiores dificuldades de expressão pareceram relacionadas a um futuro mais remoto, notadas pela escolha de localização no papel e pelos tempos escolhidos para os desenhos PG. Mesmo que a temporalidade do adolescente tenha essa característica mais presente fazendo que as noções de mudanças trazidas pelo tempo sejam mais difíceis de imaginar, no caso das adolescentes grávidas pode também ter ocorrido um movimento de controle perante as angústias das transformações vindouras, que incluíam principalmente os temores do parto.
As imagens compensatórias (sinal comum nos desenhos de grávidas adultas) apareceram mais freqüentemente nos desenhos PG, de auto-retratos num tempo posterior ao parto. Essa prospecção de auto-imagem recebeu um tratamento reforçado quanto à imagem do crescer, com maior apresentação de acessórios e roupas com estilo mais adulto. Esse retrato do futuro (e um futuro próximo) apresentou-se mais protegido de conflitos (menos sombreado, com menos correções).
Quando expressavam essa imaginação acerca de si mesmas no futuro, algumas adolescentes o fizeram de forma associada à presença do(a) filho(a). Esse dado pode ser característico de grávidas adolescentes, já que nas instruções da prova ICG de Savastano (1981) também havia a solicitação de um auto-retrato (imagem consciente), em que desenhos de filhos não foram referidos. No caso das adolescentes grávidas pesquisadas, algumas hipóteses pode ser levantadas acerca desse dado, como: expressão de um esforço para aproximação da idéia de ter um filho, expressando-o de forma mais concreta, ou uma idealização da condição de maternidade. Pode ter ocorrido também a projeção do bebê, extensão de si mesma (Aguirre, 1995).
Também as melhorias dos auto-retratos futuros (PG mais compensatórios e com menos sinais gráficos de conflito) levaram à suposição da presença de fantasias gratificantes acerca da vinda do bebê, como um significado de ganho e não de perda.
A auto-imagem em transformação apareceu trabalhada nos aspectos de vaidade, nos trajes usados de forma mais ou menos jovial e nas aquisições de novos comportamentos (segurando carrinhos de bebê, ou parecendo tirar uma foto com o(a) filho(a)). Os umbigos expostos nos desenhos AG tenderam a desaparecer como elemento de sensualidade da moda dos trajes (o uso do estilo "Saint-Tropez"). As roupas mais adultas, com vestidos longos e roupas com mais detalhes muitas vezes substituíram (nos desenhos PG) as imagens mais adolescentes dos desenhos AG.
A preocupação com a sensualidade pareceu mais evocada nos desenhos PG (acessórios, tipo de roupa). A sugestão de genitais ocorreu mais freqüentemente nesses auto-retratos e pode estar relacionada com as fantasias acerca de um mundo adulto, mais genital. Esse desenho futuro também podia trazer uma " memória fantasiada" do parto (as pernas mais abertas).
O tratamento dado às cinturas e aos seios (ausentes ou pouco definidos) podia estar menos relacionado à gravidez e mais ligado ao próprio estágio de desenvolvimento corporal, sem ainda ter alcançado maior delineamento das curvas do corpo feminino adulto.
No grupo pesquisado, as adolescentes mais novas (de 13 e 14 anos) apresentaram traços mais significativos de rebeldia (posição da folha e localização dos desenhos) e desenhos mais próprios de um mundo infantil (os auto-retratos pareciam muitas vezes de crianças).
As adolescentes de 16 anos pareceram mais perceptivas do próprio estado como grávidas, denotando os maiores índices de conflitos nos desenhos G (os auto-retrato estando grávida com maior presença de desarmonia, com mais figuras nuas e todos com linhas reforçadas). Foram essas adolescentes que evocaram mais elementos de contato com a realidade (maior uso de linha de solo).
As adolescentes grávidas de 15 anos de idade tiveram um destaque especial no grupo pesquisado enquanto evidenciaram em seus auto-retratos sinais característicos de maiores conflitos e defesas. Talvez essas maiores dificuldades encontradas na faixa etária dos 15 anos estivessem relacionadas com uma passagem mais crítica dessa idade, símbolo cultural feminino da entrada na sexualidade genital (como sugerido em contos de fadas e em rituais de acasalamento dos bailes de debutantes).
Sinais de transformação aparentaram ser mais críticos das adolescentes de 15 anos, trazendo elementos diferenciados das adolescentes grávidas mais novas ou com mais de 15 anos. As adolescentes grávidas de 15 anos pareciam se perceber menos grávidas e mais adolescentes (ou mais mulheres ). Foram as adolescentes grávidas de 15 anos que apresentaram os auto-retratos futuros (PG) mais positivos (os mais compensatórios, mais harmônicos e com mais sugestão de genitais).
Por fim, pode-se acrescentar que nas adolescentes grávidas pesquisadas, de forma geral, os aspectos mais conscientes da identidade pareceram razoavelmente controlados e não particularmente prejudicados, apesar da auto-imagem referente ao tempo anterior à gravidez ser menos carregada de conflitos.
A partir desses resultados, pode-se então concluir que sob o ponto de vista das adolescentes pesquisadas (e um ponto de vista "projetivo"), estar grávida não era tido como uma grande ameaça para a personalidade. Pelo que se observou nos seus auto-retratos, elas "se viam" em transformação, temendo perdas na auto-imagem, mas prevendo (ou desejando) possibilidade de ganho, após o nascimento do bebê.

Referências bibliográficas

AGUIRRE, A.M.B. Aspectos psicodinâmicos de adolescentes grávidas: entrevistas clínicas e Rorschach no contexto hospitalar. São Paulo, 1995. 141 p. Tese (Doutorado) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.

COSTA, A.C.G. Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática. Fundação Odebrecht, Modus Facient, 1996.
HAMMER, E.F. Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. Rio de Janeiro, Interamericana, 1981.

HERZBERG, E. Estudos normativos do desenho da figura humana (DFH) e do Teste de Apercepção Temática (TAT) em mulheres: implicações para o atendimento a gestantes. São Paulo, 1993. 224p. Tese (Doutorado) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.
KOLK, O. L. van Testes projetivos gráficos no diagnóstico psicológico. São Paulo, EPU, 1984.

LEOPOLDIANUM, Revista de Estudos e Comunicações, n° 73, p. 79-98, 2000.
MACHOVER, K. Proyecion de la personalidad en el dibujo de la figura humana: un metodo de investigación de la personalidad. Trad. José M. Gutierrez. Havana, Cultural, 1949.

MENEZES, M.I.C.B.B. A gravidez e o projeto de vida: uma análise das adolescentes grávidas das camadas populares. São Paulo, 1993. 207p. Tese (Doutoramento) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

OLIVEIRA, N.R. Perfis de grávidas e mães adolescentes: estudo psicossocial de adolescentes usuárias de um serviço público de pré-natal e maternidade. São Paulo, 1999. 291 p. mais anexos. Tese (Doutorado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.

SAVASTANO, H. Aspectos da imagem corporal da gestante nos três trimestres de gravidez: implicações na assistência pré-natal. São Paulo, 1981. 232p. Tese (Doutorado) - Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.

Profª. Drª. Nancy Ramacciotti de Oliveira



Gravidez e Maternidade de Adolescentes
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colaboradores: carmen e maria celia

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